Povo que teve participação histórica na defesa da fronteira oeste brasileira ainda enfrenta dificuldades de acesso dentro de seu próprio território. Em visita à Aldeia Alves de Barros, candidato a deputado federal defendeu que desenvolvimento também precisa chegar às comunidades indígenas
A história dos Kadiwéu se confunde com a própria formação da fronteira oeste brasileira. Conhecidos historicamente como “índios cavaleiros”, eles tiveram participação na Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870, quando grupos Kadiwéu combateram ao lado das forças brasileiras.
Mais de 150 anos depois, o território permanece no centro da vida desse povo, mas o desafio agora passa por garantir condições para viver, produzir e gerar renda dentro dele.
Foi essa realidade que o candidato a deputado federal Carlos Bernardo encontrou durante visita à Aldeia Alves de Barros, na Terra Indígena Kadiwéu, em Porto Murtinho. Ao conversar com lideranças e moradores, uma reivindicação apareceu de forma recorrente: melhorar as estradas e os acessos entre as aldeias, condição considerada essencial não apenas para o deslocamento das famílias, mas para saúde, educação, trabalho e, principalmente, para permitir o escoamento da produção das comunidades.
Com aproximadamente 538 mil hectares, a Terra Indígena Kadiwéu está majoritariamente situada em Porto Murtinho e corresponde a cerca de 30% da extensão territorial do município. As grandes distâncias ajudam a dimensionar o desafio. Entre algumas comunidades, são dezenas de quilômetros de estradas internas que, especialmente no período de chuvas, podem apresentar dificuldades de circulação.
Para Carlos Bernardo, conhecer essa realidade presencialmente é fundamental para construir políticas públicas que considerem as particularidades de cada região de Mato Grosso do Sul.
“Não podemos falar em desenvolvimento olhando apenas para os grandes centros ou para quem está perto das rodovias. Aqui existem famílias que trabalham, produzem e querem oportunidades, mas enfrentam um problema básico: como fazer essa produção chegar ao mercado? Estrada também é desenvolvimento. É acesso à saúde, à escola, ao trabalho e é condição para transformar produção em renda”, afirmou Carlos.
Produzir não basta se não houver como escoar
Isaac, supervisor estadual ligado ao Ibama e responsável pelo trabalho da Brigada Kadiwéu, acompanha a realidade da região há anos. Segundo ele, a precariedade das estradas internas interfere diretamente na rotina dos moradores e na capacidade produtiva.
“Muita gente tem sua roça e produz dentro da comunidade, mas, quando a estrada está ruim, não consegue escoar. A pessoa produz, mas encontra dificuldade para vender aquilo que produziu. Melhorar esses acessos ajudaria muito a comunidade, tanto no deslocamento das pessoas quanto na geração de renda”, explicou.
Ele cita como exemplo o trajeto entre as aldeias Alves de Barros e Tomázia, com aproximadamente 64 quilômetros. Em determinados períodos do ano, segundo Isaac, as condições da estrada dificultam a circulação e obrigam moradores a buscar caminhos alternativos muito mais extensos.
O cacique Pedro Nunes reforçou que infraestrutura está entre as prioridades da comunidade, ao lado de saúde e educação.
“O povo Kadiwéu precisa de pessoas que realmente olhem para o nosso povo. Precisamos de estrada boa, precisamos melhorar a escola e precisamos de atenção para a saúde. São necessidades que fazem diferença na vida das nossas famílias”, afirmou.
Para o cacique Eudes de Souza, políticas públicas eficientes começam pela aproximação com as comunidades e pelo conhecimento das dificuldades existentes no território.
“A gente precisa de parceiros que olhem para a nação Kadiwéu e para o território onde vivemos. Nosso território é muito grande e muitas vezes precisamos de apoio, seja para as ações da brigada, para equipamentos ou para outras necessidades da população. É importante ter pessoas que venham até aqui, conheçam a nossa realidade e estejam dispostas a construir junto com a comunidade”, destacou.
Um povo que ajudou a defender a fronteira
A presença dos Kadiwéu na região antecede a própria configuração atual de Mato Grosso do Sul. Descendentes dos Mbayá-Guaikuru e pertencentes à família linguística Guaikuru, eles desenvolveram uma relação histórica profunda com o território e se tornaram conhecidos pelo domínio da cavalaria.
Durante a Guerra do Paraguai, essa experiência territorial teve papel relevante. Grupos Kadiwéu lutaram ao lado do Brasil e participaram da defesa da região de fronteira. A atual Terra Indígena Kadiwéu foi posteriormente reconhecida e homologada pelo Governo Federal em 1984.
Para Carlos Bernardo, reconhecer essa contribuição histórica precisa significar também olhar para as condições presentes.
“Estamos falando de um povo que faz parte da história de Mato Grosso do Sul e da construção da nossa fronteira. Não podemos lembrar dos povos indígenas apenas quando contamos a história do Estado. Precisamos enxergá-los quando discutimos o futuro. Respeitar essa história também significa criar condições para que essas comunidades tenham infraestrutura, possam produzir, gerar renda e escolher como querem se desenvolver, preservando sua identidade e sua cultura”, afirmou.
A discussão ganha ainda outra dimensão diante das transformações previstas para a região com a consolidação da Rota Bioceânica. Porto Murtinho será um dos principais pontos brasileiros do corredor internacional, aumentando a perspectiva de circulação de mercadorias, pessoas e turistas pelo sudoeste de Mato Grosso do Sul.
Para as comunidades indígenas, esse novo cenário pode representar oportunidades relacionadas à produção local, ao artesanato e ao turismo, mas também exige planejamento e políticas capazes de proteger o território e garantir que os benefícios econômicos gerados na região possam alcançar as populações que vivem nela.





