Cenário abre novas oportunidades de mercado para produtores rurais
A ampliação da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel no Brasil deve intensificar a demanda por soja nos próximos anos, com impactos diretos na cadeia produtiva de Mato Grosso do Sul. A política de incentivo aos biocombustíveis, alinhada à transição energética e ao uso de fontes renováveis, tem fortalecido o papel do biodiesel na matriz nacional.
Desde 2008, o percentual de mistura obrigatória evoluiu de 2% para 14% em 2024, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Atualmente, cerca de 70% do biodiesel produzido no país utiliza óleo de soja como matéria-prima, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, consolidando a integração entre o setor agrícola e o energético.
Esse cenário tende a ganhar ainda mais força na próxima década. Estudo técnico elaborado pela Aprosoja/MS aponta que a demanda nacional por soja destinada ao biodiesel pode saltar de 43,2 milhões para 74 milhões de toneladas até 2035, avanço de aproximadamente 72%.
Segundo o analista econômico da entidade, Mateus Fernandes, o crescimento abre espaço para o fortalecimento da agroindústria. “A maior procura por matéria-prima pode estimular investimentos em esmagamento, armazenagem e logística, além de ampliar as opções de comercialização para o produtor”, avalia.
Para sustentar essa expansão, o setor projeta aportes de cerca de R$ 52,5 bilhões em novas plantas industriais e unidades de processamento, conforme a Abiove. Mato Grosso do Sul, que responde por aproximadamente 8% da capacidade nacional de produção de biodiesel, tende a absorver parte relevante desse ciclo de investimentos.
No Estado, a demanda por soja voltada ao biodiesel deve avançar de 3,45 milhões de toneladas em 2025 para 5,92 milhões em 2035. O aumento de 2,47 milhões de toneladas representa praticamente uma nova safra média regional direcionada exclusivamente ao setor energético.
O movimento acompanha a expansão da produção nacional de biodiesel, que alcançou 9,07 milhões de metros cúbicos em 2024 e 9,84 milhões em 2025, segundo a ANP. Com isso, cresce também a necessidade de processamento industrial da soja.
A tendência é de maior industrialização dentro do próprio Estado. A capacidade de esmagamento em Mato Grosso do Sul deve passar de 15,5 mil para 18 mil toneladas por dia, alta de cerca de 16%, conforme levantamento da Aprosoja/MS com base em dados da Abiove.
Essa mudança altera o destino da produção: parte do grão que hoje é exportada in natura tende a ser processada localmente, gerando óleo para biodiesel e farelo para ração animal. O aumento da oferta de farelo fortalece cadeias como avicultura e suinocultura, ampliando os efeitos positivos sobre o agronegócio regional.
Para atender à nova demanda, a área cultivada com soja no Estado pode crescer de 1,08 milhão para 1,84 milhão de hectares até 2035. Atualmente, a produtividade média gira em torno de 53,4 sacas por hectare, equivalente a cerca de 3,2 toneladas, considerando a média da última década.
A possível elevação da mistura obrigatória para 17% já em 2026 reforça esse cenário. Nesse caso, o Brasil poderia demandar aproximadamente 14,6 bilhões de litros de biodiesel por ano, frente aos cerca de 12 bilhões atuais, exigindo cerca de 52,4 milhões de toneladas de soja. Em Mato Grosso do Sul, a demanda poderia chegar a 4,19 milhões de toneladas.
Logística e agregação de valor
Com maior processamento interno, a dinâmica logística também tende a mudar. A redução do envio de grão bruto para exportação deve ser acompanhada pelo aumento do transporte de derivados, exigindo adequações em infraestrutura.
O avanço do biodiesel reposiciona a soja como insumo estratégico também no setor energético. Para Mato Grosso do Sul, o cenário aponta para a consolidação de um modelo mais industrializado, com maior geração de valor dentro do Estado. O desafio estará em equilibrar crescimento, produtividade e infraestrutura para sustentar a expansão.
Como funciona a produção de biodiesel
Após a colheita, a soja é processada para extração do óleo vegetal, principal matéria-prima do biodiesel, enquanto o farelo é destinado à nutrição animal. Em seguida, o óleo passa pelo processo de transesterificação, reação química com álcool (geralmente metanol) e um catalisador, que resulta na produção de biodiesel e glicerina. O combustível é então purificado e misturado ao diesel fóssil conforme os percentuais definidos pela política energética nacional.

