28.7 C
Dourados
segunda-feira, 16 de março de 2026
- Publicidade-spot_img

Degradação de pastagens cresce, revela fragilidade social em áreas do agronegócio e evidencia falhas nas políticas agrícolas

- Publicidade -

Estudo aponta que milhões de hectares degradados em Mato Grosso e Pará revelam não apenas falhas técnicas, mas desigualdades estruturais no campo e dificuldades de acesso a crédito e assistência técnica

A degradação de pastagens no Brasil tem sido tratada, historicamente, como um problema técnico de manejo do solo. No entanto, uma análise recente da consultoria Agroicone aponta que o avanço da recuperação dessas áreas esbarra em desafios sociais, econômicos e institucionais que vão muito além da produtividade agropecuária.

O estudo amplia a aplicação do IDR-CAR (Índice de Desenvolvimento Rural para o Cadastro Ambiental Rural), ferramenta criada pela consultoria para avaliar a situação das pastagens e as condições socioeconômicas dos produtores. A análise concentrou-se nos estados de Mato Grosso e Pará, duas das principais fronteiras agropecuárias do país.

Segundo os pesquisadores, o cruzamento entre dados ambientais e indicadores sociais revela uma realidade mais complexa no campo: grande parte das áreas degradadas está associada a propriedades menores, com baixa renda, pouca infraestrutura e acesso limitado a políticas públicas.


Pequenos produtores concentram parte relevante das áreas degradadas

Embora ocupem áreas menores, os imóveis rurais de pequeno porte respondem por uma parcela significativa das pastagens degradadas no país. Para especialistas, o dado evidencia as contradições de um modelo agropecuário que expandiu produção e exportações, mas manteve desigualdades profundas no meio rural.

A pesquisa foi conduzida por Leila Harfuch, Lauro Vicari e Gustavo Lobo. Eles destacam que a nova aplicação do índice permite uma leitura territorial mais detalhada da realidade rural.

A ferramenta reúne diferentes camadas de informação — ambientais, sociais e econômicas — permitindo que o diagnóstico da degradação considere fatores como renda, educação e infraestrutura das famílias rurais.

Segundo Harfuch, essa abordagem amplia a compreensão do problema.

“Quando a análise inclui apenas o solo, ela mostra o tamanho do problema. Quando incorpora renda, educação e infraestrutura, começa a revelar as causas da degradação.”


Mato Grosso e Pará lideram áreas de pastagens degradadas

Nos dois estados analisados, o volume de pastagens degradadas é expressivo, especialmente entre pequenos imóveis rurais registrados no Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Em Mato Grosso, a área total de pastagens degradadas chegou a 10,1 milhões de hectares, considerando 152,7 mil registros no CAR em 2022.

Entre os 103,3 mil imóveis com até quatro módulos fiscais e ao menos um hectare de pastagem, a área degradada soma 2,6 milhões de hectares, o equivalente a 25,3% do total.

Já em Pará, a degradação alcança 6,6 milhões de hectares distribuídos em 276,7 mil registros no CAR.

Entre os 203,8 mil pequenos imóveis rurais, o problema é ainda mais expressivo: 2,7 milhões de hectares degradados, ou 40,7% da área total de pastagens.


Crédito rural e assistência técnica ainda chegam a poucos produtores

A pesquisa aponta que um dos principais entraves para recuperar pastagens degradadas está no baixo acesso a crédito rural e assistência técnica, instrumentos considerados essenciais para modernizar práticas produtivas.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a partir do Censo Agropecuário 2017, mostram que em Mato Grosso:

  • apenas 15,9% dos produtores familiares tiveram acesso a crédito rural
  • 12,5% receberam assistência técnica
  • 11,2% adotaram práticas de recuperação de pastagens

Entre os imóveis analisados no estudo, 28,2 mil propriedades (27,3%) contrataram crédito ao menos uma vez. O pico ocorreu na safra 2022/2023, quando 12 mil CARs obtiveram financiamento — apenas 11,6% do total.

No Pará, o cenário é ainda mais restritivo:

  • 6,1% dos produtores tiveram acesso a crédito rural
  • 4,7% receberam assistência técnica
  • apenas 4% adotaram práticas de recuperação

Entre os imóveis avaliados, 30,7 mil propriedades (15,1%) contrataram crédito ao menos uma vez. O pico ocorreu na safra 2021/2022, com 11 mil CARs financiados, o equivalente a 5,4% do total.


Degradação reflete vulnerabilidade social no campo

Para os pesquisadores, a degradação das pastagens não pode ser atribuída exclusivamente a falhas no manejo ou falta de tecnologia. O fenômeno também reflete condições estruturais de vulnerabilidade social no campo.

Pastagens degradadas reduzem a produtividade, comprometem a renda das famílias rurais e ampliam a pressão econômica sobre os produtores. Em muitos casos, esse ciclo acaba incentivando a abertura de novas áreas, ampliando impactos ambientais e reforçando a lógica de expansão territorial da agropecuária.

Segundo Vicari, fatores socioeconômicos pesam diretamente na capacidade de adoção de boas práticas.

“Existem limitações estruturais, como renda e acesso a políticas públicas, que influenciam diretamente a capacidade do produtor de recuperar suas áreas.”


Tecnologias existem, mas não chegam de forma igual

Outro ponto destacado pelo estudo é que as tecnologias para recuperação de pastagens já estão disponíveis no país. O desafio está na desigualdade no acesso a essas soluções.

De acordo com Lobo, as condições de partida entre os produtores rurais são muito distintas.

“Existe um conjunto consolidado de tecnologias para recuperação de pastagens. O problema é que elas não chegam da mesma forma a todos os produtores.”


Integração de políticas públicas pode acelerar recuperação

O estudo também aponta que análises territoriais mais detalhadas podem ajudar a direcionar melhor as políticas públicas, priorizando regiões com maior vulnerabilidade social e ambiental.

A abordagem dialoga com metas climáticas previstas no Plano ABC+, que inclui a recuperação de pastagens como estratégia para reduzir emissões e aumentar eficiência produtiva.

Outra iniciativa relacionada é o Caminho Verde Brasil, voltado à estruturação de investimentos para transformar áreas degradadas em sistemas produtivos considerados mais sustentáveis.


Diagnóstico social pode redefinir estratégias no campo

Para os especialistas, compreender as causas sociais da degradação é fundamental para transformar diagnósticos técnicos em soluções efetivas.

Mais do que identificar onde estão as áreas degradadas, a análise territorial integrada busca responder por que elas continuam degradadas — e quais políticas podem romper esse ciclo.

“Não se trata apenas de mapear a degradação, mas de entender por que ela acontece e quais condições são necessárias para superá-la de forma inclusiva e sustentável”, conclui Harfuch.

Veja também

- Publicidade -

Últimas Notícias

- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

- Publicidade-