09/03/2015 17h15 – Atualizado em 09/03/2015 17h15
Por Maurício Antônio Lopes*
Água é mistério e dádiva. Mistério porque a ciência ainda não conseguiu desvendar de onde ela veio. Alguns acreditam que a água chegou ao nosso planeta por meio de corpos celestes que aqui caíram ao longo de milhões de anos. Nada comprovado, o mistério permanece. E a água é uma das maiores dádivas que o planeta nos concede. O precioso líquido cumpre variadas e complexas funções, sendo a mais nobre prover condições para a realização da enormidade de reações químicas e processos biológicos que sustentam a teia da vida.
Além disso, a água é componente fundamental da paisagem e do meio ambiente, com impactos sobre o bem-estar espiritual e físico. São inúmeras as utilidades para a sociedade: abastecimento doméstico e industrial, produção de alimentos e fibras, dessedentação de animais, geração de energia, transporte de pessoas e cargas, recreação, turismo e preservação da biodiversidade. Além da função essencial de limpar corpo, casas e cidades dos resíduos que geramos.
A água faz parte de uma rede de interdependências nem sempre percebida ou valorizada. Sua escassez impacta a oferta de alimentos, de energia, de saúde e de mobilidade, como se vê no noticiário. E como é recurso finito, preocupações relacionadas à competição pelo seu uso crescerão de forma proporcional ao aumento da demanda pela sociedade.
Apesar de abrigar 12% das reservas de água doce do planeta, o Brasil convive com situações preocupantes de escassez. A seca que penaliza o semiárido nordestino há décadas e o severo deficit de precipitações que no momento aflige a Região Sudeste nos impõem um desafio – de aprimorar o manejo e o uso sustentável dos recursos hídricos em lugar de nos conformarmos com a escassez ou o acirramento da competição pelo seu uso no futuro.
A primeira urgência é a ampliação da comunicação em busca do diálogo e do entendimento sobre as melhores práticas na gestão dos recursos hídricos. A Agricultura tem sido apontada como uma das vilãs da crise hídrica, suposta consumidora de 70% das reservas de água. Crítica injusta, pois o percentual, bastante usado internacionalmente, não encontra sustentação na realidade brasileira.
A nossa Agricultura não compete com as cidades por água tratada. Ela apenas toma emprestada da natureza a água da chuva, que iria a rios e oceanos, e a devolve limpa, com a evaporação, a transpiração e ia nfiltração no solo. É claro que cidades e fazendas podem melhorar a eficiência no uso das águas. Mas demonizar a produção de alimentos só nos trará mais problemas.
Outra urgência é aumentar a capacidade de armazenagem de água na abundância de chuvas e garantir a oferta nos períodos de escassez. Com mais reservatórios em pontos estratégicos, poderíamos ampliar a prática da irrigação, ainda pouco utilizada no Brasil. Além de impulsionar a produção de alimentos, a irrigação pode cumprir outro nobre papel – reduzir o nível das reservas ao longo do período seco, fazendo das represas, açudes e lagos bateria de amortecedores para mitigar os efeitos das enchentes, que tanto dano têm causado com o aumento de eventos climáticos extremos.
Precisamos, ainda, mobilizar o arsenal tecnológico disponível para harmonização da relação água-energia-alimento. A Embrapa tem disseminado tecnologias de baixo custo para construção de pequenas barragens para captação de enxurradas, que promovem a infiltração da água no solo, reduzindo a erosão e elevando o lençol freático. E precisamos ampliar a adoção de sistemas de irrigação que otimizem o uso de água e energia, além de práticas conservacionistas que protejam o solo e reduzam a evaporação. Florestas plantadas, cultivos e pastagens bem manejados podem contribuir para a conservação da água, pelo solo, mitigando os efeitos negativos decorrentes da grande dispersão entre precipitações das estações chuvosa e seca.
Por fim, é preciso superar o mito da abundância. Cerca de 80% da água doce do Brasil está na região amazônica; os outros 20% abastecem larga extensão do território brasileiro onde habitam 95% da população. O avanço do processo de urbanização nos força a discutir o impacto das cidades na poluição dos recursos hídricos e na ampliação do uso insensato da água. Descarregar esgoto não tratado nos rios ou lavar carros e calçadas com água tratada precisa se tornar coisa do passado. A crescente escassez hídrica indica que não estamos diante de desafio trivial. O aumento da consciência coletiva se tornou questão de sobrevivência.
*Maurício Antônio Lopes é Presidente da Embrapa
Fonte: Correio Braziliense


